Meias...
Vez em quando lembro dela
Do sorriso dela
Daquela boca
E da língua... que nunca entendi
Ela falava outro idioma
Era outra a língua dela
Era de outro planeta
Ou eu é que era?
Vez em quando lembro dela
Dela descalça
Dela sem meia
E dela com meia também...
Quase sempre com meia...
Meia pressa, apressada
Meia muda, desligada
Meia surda, enfezada
Com meia feia e com meia bonita
Mas ela sempre linda!
Vez em quando lembro dela
E se eu me lembro dela
fico assim:
com a minha meia...
saudade.
Instante
Um instante que nunca passa...
É o que temos agora
Uma fração do tempo que se tornou eterno
e trouxe este ar sombrio
Morno e incerto instante
Nasce aqui um pensamento vago
Vago, não vazio.
Algo que lembra caos
Lembra frio...
Não, não existem lembranças
Do que houve antes, mas antes
O mundo foi outro; num outro dia
Quando o tempo era inda supremo
Quando o homem deus se dizia
O instante se tornou eterno
E o pensamento
Sutil, quase supérfluo...
O que restou do instante?
Nada mais...
BALADA DA MORTE
Difícil era dizer o que se passava
Pela mente infame do ser que rondava
A noite cálida que outrora nasceu
E nunca mais, nunca mais desapareceu.
Fácil era dizer o que ocorria
O sol o dia a vida e tudo morria
Enquanto Capuz Preto e foice na mão
Ria feliz na Praça da Escuridão
Só se ouve a gargalhada pesada
Onde nunca mais haverá luz
Nem sonho nem vida nem nada
Só se ouve o mal que seduz
No riso eterno da madrugada
Escondendo a face sob o capuz
Mosquito
Sinto meu peito menor que o de um mosquito
Apertado,
Sufocante,
Tento algum jeito de gritar, mas não consigo;
Sufocado,
Torturante;
Um inexistente abrigo no coração esquecido
Em algum lugar deste peito
Apertado,
Sufocante,
Torturado...
Sinto meu peito menor que o de um mosquito...
... o de um mosquito...
... se ao menos eu pudesse voar!
Talvez me distraísse ver tudo muito maior
Tudo muito maior; talvez me distraísse...
E se tudo fosse mesmo muito maior
A tortura,
O sufoco,
O abrigo
Abandonado,
O Vazio...
E se eu for mesmo
Um mosquito!?
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